Agroglifos são vistos em Ipuaçu desde 2008. Foto: Ivo Hugo Dohl/Divulgação

Os círculos desenhados nas plantações de cereais não são mais novidade em Ipuaçu, cidade de 7 mil habitantes no noroeste de Santa Catarina. Isso porque são registrados, anualmente, desde 2008, geralmente em final de outubro ou início de novembro. Os últimos agroglifos, como são chamados pelos ufólogos, foram encontrados no dia 13 de outubro em uma propriedade rural afastada. Apesar de ser um acontecimento esperado, a aparição desses estranhos sinais continua gerando confrontos de opiniões entre ufólogos, que os chamam de fenômenos - atribuídos a uma inteligência superior -, e cientistas, que creem se tratar apenas de brincadeiras feitas por seres humanos. Enquanto isso, a polícia segue investigando o caso.
O professor Adolfo Stotz Neto, presidente do Grupo de Estudos de Astronomia do Planetário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é uma das pessoas que periodicamente é entrevistada sobre o assunto. Stotz garantiu se tratar de círculos feitos com uma tábua e uma corda, técnica que já foi até revelada em programas de TV. Já o jornalista e ufólogo Ademar Gevaerd, editor da Revista UFO, contrapõe com veemência a opinião do astrônomo. "Postulo que o fenômeno é legítimo. E não acontece em nenhum outro local do Brasil, apenas em Ipuaçu", garante, procurando derrubar a teoria de que os sinais são feitos por seres humanos.
Perfeição
Os sinais surgiram no sul da Inglaterra, na região de Witshire, em meados dos anos 1970. Ganharam notoriedade e ficaram conhecidos pelo nome de "crop circles" (círculos da colheita, em inglês). Eles são feitos em lavouras de cereais, que têm longos caules e, por isso, deixam marcas mais profundas. Esses caules são dobrados em grande quantidade, geralmente obedecendo a um sentido circular. A atividade preenche também todo o seu diâmetro, sempre no mesmo sentido da circunferência - horário ou anti-horário. "As plantas são dobradas, mas não morrem. Há uma precisão cirúrgica no processo desse fenômeno", afirma Gevaerd.
O ufólogo acompanhou as informações vindas de Ipuaçu, mas, neste ano, não esteve presente no local. Nos quatro anteriores, deslocou-se até onde haviam sido registrados os agroglifos com o intuito de estudá-los. "O desse ano tem formato de halteres. Tem um círculo de 40 metros de diâmetro e, ao redor, há 30 círculos pequenos, precisamente com a mesma dimensão - todos eles com três metros de diâmetro e suas plantas dobradas no sentido anti-horário, ao redor do círculo maior", conta. "Como você faz isso com cabo de vassoura e cordas?", questiona o ufólogo.
Ele se refere aos instrumentos com os quais, em programas de TV, artistas e desmistificadores revelaram como parece ser relativamente simples produzir um "crop circle". Basta empurrar contra os cereais, com um dos pés, uma tábua de 1,5 metro, sustentada por cordas presas em suas extremidades. No caso dos círculos de três metros, por exemplo, bastaria que a pessoa girasse em torno de um ponto central e completasse o círculo.
Gevaerd, no entanto, destaca a perfeição da obra em sua argumentação. "Há uma precisão cirúrgica no processo desse fenômeno. Vamos supor que fosse um grupo de fraudadores. Quantos teriam que ser? Mesmo uns 20 ou 30 não fariam com essa complexidade e simetria, ainda mais sem serem vistos".
Porém, uma pesquisa na internet por "crop circles" revela uma grande quantidade de desenhos de complexidade ainda maior, assumidamente criados por humanos. Na Inglaterra e em outros países, desenhar agroglifos é considerado uma arte. Os primeiros a reivindicarem o crédito pela autoria dos curiosos desenhos foram Doug Bower e Dave Chorley, que até hoje são reverenciados por muitos artistas. Enquanto esses consideram os agroglifos uma forma de arte, os ufólogos têm nome para essa área particular de seus estudos: cerealogia.
Ninguém viu
Além da simetria, o outro argumento utilizado pelo ufólogo Ademar Gevaerd é o fato de que, nesses cinco anos anteriores, o fenômeno não foi creditado a nenhuma pessoa. "O delegado disse que pretende localizar os infratores. Em três semanas, não achou nada. Isso acontece em fazendas bem do interior, e nunca surgiu uma única alma para dizer que foi feito pelo fulano ou pelo sicrano", afirma. Segundo ele, há testemunhas que, antes dos aparecimentos dos agroglifos, relataram ter visto fenômenos luminosos sobre os campos. "Tem outras duas coisas curiosas. Eles acontecem sempre no mesmo município ou no seu entorno. E também na mesma época do ano", diz.
O que mais chama atenção no relato de Gevaerd é que, em uma das vezes em que esteve no local onde foram encontrados os círculos, o seu celular encontrava sinal apenas dentro do agroglifo, ao contrário de outros pontos naquela região. "Havia alterações magnéticas dentro das figuras. Em 2009, por exemplo, naquela vasta região não havia telefonia celular, de qualquer operadora. Dentro dos agroglifos, eu não apenas fiz ligação, como recebi ligação", relata.
O delegado da cidade vizinha Abelardo Luz, João Luiz Miotto, que também responde por Ipuaçu, afirma que o caso continua sendo investigado. "Estamos ouvindo o pessoal. Como aconteceu em uma propriedade rural, é difícil achar vestígios. Procuramos por cordas e madeira, mas não encontramos", explica.
Sobre evidências mais genéricas de presença humana, como pegadas, Miotto diz que não é possível distinguir se alguém esteve ali pouco antes dos círculos aparecerem, pois a propriedade foi invadida por curiosos antes da chegada da polícia. "Essas pessoas entraram com veículos e causaram mais danos. A proprietária anotou as placas e eles serão responsabilizados por danos à propriedade", conta.
Apesar de não haver provas concretas sobre os possíveis autores dos círculos, a Polícia Civil trabalha apenas com a hipótese de terem sido obra de seres humanos. "Não investigamos obras de uma força sobrenatural, até porque nem teríamos como responsabilizar alguém pelo ocorrido. Existem muitos casos que são chamados de 'cifra negra', quando, infelizmente, a polícia não consegue identificar a autoria de um crime".
Motivação
Admitindo a hipótese de os círculos não serem obras de seres humanos, o que explica, então, essas estranhas figuras? "O que posso dizer é que não são feitos por humanos, mas por alguma outra natureza. Essas figuras são mensagens para nós", opina o ufólogo Ademar Gevaerd. Ele não arrisca, entretanto, o palpite sobre o que os possíveis extraterrestres gostariam de nos dizer. "A gente não consegue compreender, eles não mandaram dicionário", brinca.
Enquanto Gevaerd não compreende qual motivação um ser humano poderia ter para fazer uma brincadeira dessas, o astrônomo Adolfo Stotz Neto não entende qual seria o objetivo do alienígena. "Por que ele sairia do seu planeta, viajaria uma distância que para nós é invencível, faria um círculo em uma plantação e voltaria?", questiona. O pouco caso de Stotz Neto contrasta com a posição de Gevaerd, de que o fenômeno mereceria mais estudos. "Ele requer o mínimo de atenção científica, e não ser tratado com ceticismo e ignorância".